Entrevista ao Jornal Costa do Sol - 16 de Março de 2016

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Está há poucos meses à frente da corporação mas assume já um enorme orgulho nos homens e mulheres que comanda. Ricardo Ribeiro falou das dificuldades da vida dos bombeiros voluntários e revela novos projetos que quer implementar na área de intervenção.

É o décimo primeiro comandante do corpo de Bombeiros Voluntários de Paço de Arcos. Ricardo Ribeiro tomou posse no passado mês de outubro, sucedendo a Luís Filipe Silva, que esteve oito anos à frente da instituição centenária. Fundada em 1893, a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Paço de Arcos (AHBVPA) é uma das mais antigas do concelho.

RICARDO RIBEIRO, COMANDANTE DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE PAÇO DE ARCOS
“ESTÁ A PERDER-SE O VERDADEIRO ESPÍRITO DE VOLUNTARIADO”

Ricardo Ribeiro não é bombeiro de formação mas tem larga experiência na proteção civil. Professor universitário, está a fazer doutoramento na área. Anteriormente, foi “coordenador de Proteção Civil de Vila Franca de Xira, teve responsabilidades políticas ao nível municipal, noutro concelho”, e já foi comandante, durante quatro anos, noutra corporação, a dos Bombeiros Mistos de Grândola.

“Em termos da realidade do risco há bastante similitudes”, compara. “A única grande diferença é que nós aqui temos muitos incêndios urbanos e lá tínhamos incêndios florestais. As tipologias de risco são muito idênticas, embora o risco industrial fosse maior por causa do Porto de Sines.

Agora em Paço de Arcos, comanda um corpo que tem com área de intervenção a freguesia, mas que também inclui a área marítima”. E é justamente nesse âmbito que Ricardo Ribeiro pretende desenvolver um projeto em conjunto com “os vários stakeholders do processo de socorro náutico”, no qual serão envolvidos os concessionários, a junta de freguesia, a câmara municipal e a AHBVPA, no sentido de “dar uma resposta integrada que atuasse com prontidão, seja ao nível dos nadadores salvadores, da disponibilização de uma ambulância permanente”. Trata-se de um posto de comando permanente, que “seja operacional, pelo menos, nos meses de verão, com todo o equipamento necessário e em proximidade”. Acresce ainda a ideia de colocar no passeio marítimo dois bombeiros a vigiar as praias, num quadro de “vigilância de proximidade”, para o qual “a União de Freguesias já disponibilizou duas bicicletas”, para além do barco e da mota de água, meios já disponíveis e operacionais atualmente.

“Acho que este projeto seria um claro upgrade em termos de resposta e prontidão à segurança dos veraneantes e turistas”, defende.

VOLUNTÁRIOS

“Eu estava numa zona tipicamente rural, onde havia uma interação direta e diária com os bombeiros”, recorda Ricardo Ribeiro. “Aqui há uma relação menos pessoal”, mas a verdade é que “a função de bombeiro é muito acarinhada pela população”.

O comandante faz questão de sublinhar que todos são voluntários: “mesmo os bombeiros que são profissionais, têm serviço de voluntariado”. Explica que “se queremos ter serviço durante o dia, não podemos ter só voluntários”. Ou seja, atualmente, “o serviço de bombeiro não se compadece com o facto de não ter aqui ninguém para dar uma resposta em prontidão”.

Contudo, confessa que “o verdadeiro espírito de voluntariado está a perder-se, não só porque a vida é mais exigente com as pessoas, mas porque o enquadramento sociopolítico não tem estimulado o seu desenvolvimento, antes pelo contrário”. E dá um exemplo: “os bombeiros voluntários não pagavam taxas moderadoras e o anterior governo retirou esse benefício. Era um reconhecimento”.

Hoje em dia, “um bombeiro é um individuo altamente especializado que, para além de ter conhecimento ao nível de manuseamento de matérias perigosas, do combate a incêndios, de suporte básico de vida, de estabilização de doentes, de condução de veículos de emergência, tem também competências nas relações interpessoais, lidando por vezes com situações traumatizantes”.

Depois, ao longo da carreira, “o bombeiro tem de ter formação permanente para subir de posto e para se manter como quadro ativo, tem de certificar sistematicamente as suas competências”.

Ao nível da exigência e da qualidade, Ricardo Ribeiro revela que não faz diferença entre quem é voluntário, quem é assalariado. Isto “porque a vítima não escolhe quem vai socorrê-la”.

Esta formação permanente tanto é garantida na corporação como na Escola Nacional de Bombeiros. No início, o bombeiro estagiário entra num processo de formação que pode demorar um ano. “É extremamente seletivo, muita gente fica pelo caminho”, afirma.

Esta grande exigência deve, na opinião do responsável, “evoluir mais, para elevar o nível qualitativo”.

A qualidade, essa reflete-se no dia a dia da corporação de Paço de Arcos. “Aqui no corpo de bombeiros saímos para uma emergência entre os 30 e 60 segundos. Cada vez que isto não acontece, é reportado ao comando e é pedida justificação. A prontidão é um fator determinante na qualidade de vida que a vítima vai ter, mas também pode ser a diferença entre a vida e a morte”.

ESPÍRITO DE MISSÃO

“A missão de bombeiro é feita com muita abnegação, muita disponibilidade para o outro, com um enquadramento pessoal muito humano, e com consequências muitas vezes nefastas para a própria família”, assume Ricardo Ribeiro.

Ao mesmo tempo, defende: “Os bombeiros têm uma visão muito humana da vida e do que devemos dar à sociedade. Costumo dizer que os bombeiros entregam-se a todos. E muitas das vezes é difícil conciliar a vida de bombeiro, profissional e familiar”.

São, porém, muitos filhos que seguem as pisadas dos pais. “Temos famílias inteiras”. A recém-criada escolinha de infantes e cadetes reflete precisamente essa ligação. “Temos cerca de 30 crianças, entre os 5 e os 16 anos, estão cá filhos de bombeiros, desta e de outras corporações”.

Ainda com poucos meses à frente da corporação, o comandante fala do “privilégio que tem sido comandar estes homens e mulheres que dedicam uma parte da sua vida social, familiar e afetiva para vir ajudar quem precisa. Os meus homens e mulheres são pessoas que se dedicam por inteiro à causa e que fazem sempre o seu melhor. Isto faz com que, mais tarde ou mais cedo, se vá desenvolvendo uma relação de admiração”. Até agora, Ricardo Ribeiro e a equipa conseguiu “uma nova recruta com mais 20 elementos, diminuir o absentismo em janeiro, face ao ano anterior, em 50% e aumentar o número de serviços”.

Para ajudar a atingir esses objetivos, “a associação tem um apoio fantástico por parte da Câmara Municipal de Oeiras e por parte da Autoridade Nacional de Proteção Civil. Tem sido apanágio destas duas instituições estarem sempre atentas às necessidades da nossa corporação e das congéneres. Por isso, agradeço a estas entidades e à população em geral, que sempre que nós precisamos estão ao nosso lado, dão o carinho, atenção e o abraço que precisamos”, conclui.

Pode ler a versão impressa, através do seguinte endereço: https://issuu.com/costadosoljornal/docs/costadosol16marco

Actualizado em ( Quinta, 24 Março 2016 08:11 )  


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